Eficiência energética. “Há que envolver o sistema financeiro”

Segundo Sofia Santos, secretária geral do BCSD Portugal , todo o trabalho de sensibilização assenta na convicção de que a eficiência energética pode, em simultâneo, não só contribuir para o crescimento económico como para a redução das emissões de CO2.
BCSD

O grupo de trabalho do BCSD Portugal – Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável, identificou os bloqueios ao investimento em projetos de eficiência energética. Que medidas urgem ser tomadas no sentido de os ultrapassar? A que argumentos são mais sensíveis os empresários?


No início deste projeto dedicado à sensibilização para a eficiência energética, as empresas do BCSD identificaram 10 bloqueios: contexto de incerteza económica; a energia não é assumida como uma variável na estrutura de custos; falta de cultura organizacional direcionada para a gestão de energia; o trabalho das empresas de serviços de energia ainda é recente e relativamente desconhecido; desconhecimento das tecnologias de gestão de energia disponíveis no mercado; legislação; financiamento; profissionais de energia usam sobretudo linguagem técnica que não é entendida pelos decisores, normalmente pessoas das áreas financeiras; falta de alinhamento entre as propostas de projetos de eficiência energética e o modelo de negócios das empresas; reduzido envolvimento da gestão de topo em temas de energia.

O grupo de trabalho decidiu tentar ultrapassar os três últimos bloqueios que podem ser resumidos de forma muito simples: traduzir a linguagem técnica da eficiência energética por linguagem simples baseada em indicadores económico-financeiros que sustentam os projetos de investimento e fazer chegar estes indicadores, de forma agregada e individualizada por projeto, aos CFO e CEO das empresas. A medida que o grupo optou por tomar foi demonstrar o valor acrescentado dos projetos de eficiência energética, isto é, de que forma pode a eficiência energética contribuir para o crescimento económico da empresa e para a tornar mais resiliente.

Foram criados 17 casos de estudo e os resultados agregados dos projetos foram compilados na publicação “O potencial económico da eficiência energética”, que foi, e continua a ser disseminada junto de dois públicos-alvo decisivos: os gestores de energia e os profissionais ligados às decisões financeiras nas empresas.

De uma forma geral, as empresas são muito sensíveis a tudo o que impacte diretamente o negócio, ou no limite, o modelo de negócios. No caso da eficiência energética, o projeto do BCSD teve como objetivo demonstrar o impacto da eficiência energética nas empresas através de um conjunto de indicadores económico-financeiros, nomeadamente, investimento, payback, poupança anual obtida, poupança a cinco anos, poupança a 10 anos, consumo antes e depois do projeto, redução anual de energia, duração da implementação do projeto e, no quadro do Acordo de Paris em que nos encontramos, a redução de emissões de CO2.

O BCSD estudou também o potencial económico da eficiência energética. E de que forma pode ser decisivo para a sustentabilidade e competitividade das empresas em Portugal?


Os 17 casos de estudo de projetos de eficiência energética que o BCSD criou no sentido de demonstrar o impacto da eficiência energética, representam um investimento global próximo dos 15 milhões de euros, o qual proporcionou uma poupança anual conjunta de cerca de 13 milhões de euros. A cinco anos, a poupança agregada atinge os 64 milhões de euros e, a 10 anos, os 132 milhões de euros, números que evidenciam as vantagens da adoção de medidas de eficiência energética. Também no contexto do Acordo de Paris, os 17 projetos atingiram uma redução global de 21% das emissões de CO2, valor que se encontra em linha com os objetivos definidos no Programa Nacional para as Alterações Climáticas (PNAC), que prevê uma redução dos gases com efeito de estufa entre 18% e 23% até 2020.

Uma vez que vários estudos demonstram que a eficiência energética é o primeiro passo que as empresas dão no caminho da descarbonização, o trabalho de sensibilização para a importância da eficiência energética está longe de estar acabado. Os argumentos que o BCSD tem vindo a criar não podem ser usados apenas junto das empresas, mas de um ecossistema muito maior.

    Há, por exemplo, que sensibilizar e envolver o sistema financeiro na eficiência energética, porque sem modelos de financiamento adequados a estes projetos a redução de emissões de CO2 que os países vão ter que fazer poderá ficar comprometida. Há também que trabalhar ao nível das políticas públicas que devem ser cada vez mais favoráveis à eficiência energética e à economia de baixo carbono, assim como ao desenvolvimento das tecnologias que venham a suportar os projetos.

A visão do BCSD é que a eficiência energética pode não só trazer eficiência à economia, como contribuir para o crescimento económico, para a criação de novas empresas e de novos postos de trabalho, conseguindo, em simultâneo, reduzir as emissões de CO2.

 

Posted on 12-04-2016 in OJE

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